Me perdi no tempo e depois desse tempo perdido, aqui retorno. Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro. Estou me sentindo como se tivesse morrido e retornado ao mundo dos vivos. Se sentir falta? Claro que sim. Mas acredito e tenho acreditado que se desvencilhar de certas coisas de vez em quando é bom, e que tudo, exatamente tudo, acontece quando tem que acontecer, assim é a vida. Porém, achei (ou tenho certeza) necessidade de voltar. Gosto de usar as palavras como terapia. A palavra escrita, mesmo que silenciosa, verbalmente tem tanta coisa para falar e cada coisa tem a sua interpretação dependendo de quem a ouve, escuta, fala ou ver. Por que as jogar fora se eu posso de certa forma as colocar num papel e guardá-las? Mesmo que de um jeito ou de outro as esqueça no fundo de uma gaveta ou numa pasta salva em um arquivo qualquer no computador. Já dizia Fernando Pessoa “Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e, portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.” Nesse tempo longe, tantas coisas aconteceram e tem acontecido. Coisas das mais variáveis tonalidades, pois ao contrário da canção, a minha vida não tem sido azul da cor do mar – muito menos a sua, tenho certeza disso. Apesar de que tirando a cor, podemos a comparar ao mar: uma hora calmo e raso, na outra, agitado e profundo, não necessariamente nessa ordem. Enfim, de uma forma ou de outra temos que voltar e viver e é assim que eu, finalmente, volto para única pessoa no mundo que nunca me abandonou ou desmereceu: eu mesmo. É desse jeito meio torto, meio bruto que eu volto pra mim. Os arranhões já não me doem mais. Cada decepção eu levo como vacina, cada queda levo como impulso, cada conquista levo como vitória e assim sigo. Dessa vez prometo não me abandonar mais por tanto tempo ou me deixar de lado. Se não tiver jeito, posso até me emprestar, me dividir quem sabe, mas me perder nunca mais.
